Textos

Wladimir Pomar. Foto: Lia Costa Carvalho/Folhapress (04/09/1986)

Wladimir Pomar. Foto: Lia Costa Carvalho/Folhapress (04/09/1986)

Com este blog, pretendemos fornecer ao público uma grande oportunidade de conhecer melhor a vida e a obra de Wladimir Ventura Torres Pomar, nascido em 14 de julho de 1936 em Belém (PA), filho de Catharina Torres Pomar e Pedro Pomar, que ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCB) no início de 1933 e se encontrava preso quando nasceu o primogênito, em função da repressão desencadeada por Getúlio Vargas.

Wladimir conheceu desde muito pequeno as dificuldades decorrentes das posições políticas. Em seus primeiros anos de vida, sua convivência com o pai se dava nas frequentes visitas que fazia com sua mãe à prisão. Desde os seis anos de idade conhece a vida em clandestinidade, quando mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro já com o nome trocado.

Começou a trabalhar aos doze anos como aprendiz de linotipista, enquanto cursava o ginásio. Depois de adquirir formação técnica, tendo estudado ajustagem mecânica no Senai em 1951, trabalhou na Arno e participou no movimento sindical metalúrgico, em São Paulo. Em sua trajetória nas fábricas, trabalhou também na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), seja em Volta Redonda (RJ), no departamento de engenharia, seja em Conselheiro Lafaiete (MG), na manutenção de máquinas pesadas. Além disso, trabalhou como engenheiro de serviços da General Eletric no setor de locomotivas e como engenheiro de manutenção da Cerâmica do Cariri (CE).

Ingressou bem jovem no PCB, em 1949, atuando inicialmente no movimento estudantil secundarista. Em 1962, fez parte do movimento que se opôs aos processos de expulsão de dirigentes e militantes, e de mudança do nome do Partido Comunista do Brasil em Partido Comunista Brasileiro. Esse movimento, tendo à frente Mauricio Grabois, João Amazonas e Pedro Pomar, entre outros, resultou na reorganização do Partido Comunista do Brasil, então com a sigla PCdoB.  Dois anos depois, foi preso na Bahia, por ação de resistência ao golpe militar. Solto no final de 1964 em função de um habeas corpus, foi julgado e condenado à revelia.

Depois do golpe, colaborou com a imprensa partidária e desenvolveu suas atividades políticas e partidárias sobretudo no interior de Goiás, entre os posseiros, no sudeste do Ceará, na organização de cooperativas e sindicatos de trabalhadores rurais, e no Pará.

Viveu clandestinamente até ser novamente preso, em 1976, durante ação militar que assassinou três dirigentes do PCdoB, entre os quais seu pai, no bairro paulistano da Lapa, onde ocorria uma reunião do Comitê Central da organização. Teve liberdade condicional pouco antes de que fosse concedida a anistia aos presos políticos da ditadura militar. Pouco depois, desligou-se da direção do PCdoB e ingressou no Partido dos Trabalhadores (PT), no qual integrou a comissão executiva nacional entre 1984 e 1990. Neste período, foi responsável pela secretaria de formação política e pela coordenação do Instituto Cajamar. Participou da coordenação da campanha de Lula para deputado federal constituinte em 1986 e foi coordenador geral da campanha Lula Presidente em 1989, tendo publicado sua análise do episódio no livro Quase lá: Lula, o susto das elites (1990).

Desde 1990 Wladimir afastou-se da direção do PT e tem se dedicado aos estudos de temas variados, como atesta esta coleção de textos, e a colaborar com a Fundação Perseu Abramo.

 

Mais que disponibilizar um instrumento de pesquisa para o acesso a seus textos e com isso estimular o estudo de sua produção intelectual, pretendemos abrir mais um caminho para ampliar nosso conhecimento sobre a história contemporânea.

Wladimir foi, ao mesmo tempo, agente e intérprete de diversos períodos e acontecimentos da história brasileira, como fica evidente não apenas nos textos que escreveu, mas também na longa entrevista de história oral publicada no presente livro, na qual Pomar articula sua trajetória e experiência de vida com os processos políticos e sociais de seu tempo.

Neste sentido, a análise de sua obra permite observar pontos de vista sobre temas diversos que são representativos de parte do PCB, no qual militou entre 1949 e 1962; do PCdoB, que integrou entre 1962 e 1983; e do PT, no qual ingressou em 1983 e continua vinculado até os dias de hoje.

Assim, em certa medida, estudar a vida e a obra de Wladimir Pomar é estudar a história de uma parcela da esquerda marxista e do próprio Brasil.

Ainda assim, apesar de compor parte expressiva dos textos desta coleção, seu campo de interesses não se limita à conjuntura política, econômica e social do país no momento em que foram escritos. Entre os temas abordados pelo autor se encontram análises da situação internacional. Nos últimos anos, o autor também tem se dedicado a estudar a atual crise capitalista iniciada em 2007, bem como a situação brasileira diante do turbulento quadro internacional inaugurado com este acontecimento histórico.

Além disso vem dedicando especial atenção à China. Quando publicou O enigma chinês: capitalismo e socialismo, em 1987, época em que muito poucos (ou quase ninguém) dava a devida atenção ao que se passava naquela parte do mundo, o autor já anunciava uma embrionária potência do século XXI.

Wladimir dedica-se ao estudo da realidade daquele país desde 1981, quando esteve pela primeira vez em território chinês, tendo publicado diversos artigos e livros e concedido entrevistas sobre o tema. Nesta trajetória de mais de três décadas dedicadas a compreender as transformações passadas e presentes do chamado Império do Meio, tornou-se um dos maiores especialistas brasileiros no assunto.

Ademais, como profundo conhecedor da obra de Karl Marx e Friedrich Engels e demais intelectuais marxistas, Wladimir Pomar tem também uma vasta produção sobre a dialética e o materialismo histórico, na qual se destaca a recente obra A dialética da história publicada entre 2013 e 2014 em 15 volumes reunidos em 4 tomos, somando mais de 1.200 páginas. Neste campo, destaca-se também uma trilogia sobre a teoria e a prática das tentativas de construção do socialismo ao longo do século XX, tendo por base uma viagem de pesquisa nos antigos países do Leste Europeu: Rasgando a cortina (1991), Miragem do mercado (1991) e A ilusão dos inocentes (1994).

 

Na organização e descrição deste acervo buscamos facilitar ao máximo o acesso do público à coleção, que se encontra integralmente disponível em formato digital neste blog. A partir do rigor teórico-metodológico da arquivologia, esperamos que os mais diversos e possíveis interesses que venham a orientar a consulta a este acervo possam encontrar neste catálogo um importante ponto de apoio.

O conjunto de documentos reunidos compõe uma coleção dos textos escritos por Wladimir. Ou seja, ela resulta da reunião de itens documentais de diferentes origens, produzidos por diferentes instituições e indivíduos, agregados em função de um único critério que os mantém em comum: sua autoria. Não se trata, portanto, de um fundo que contém a documentação textual por ele escrita ou recolhida no decorrer de suas atividades e ao longo de sua trajetória.

Neste sentido, indicamos que os textos, obtidos em suporte digital e de papel, tem as seguintes origens: o arquivo pessoal de Wladimir Pomar, doações e empréstimos de colaboradores, livrarias e sebos, casas editoriais, páginas eletrônicas de periódicos e centros de memória e documentação.

A classificação dos documentos obedeceu a critérios formulados com base nas evidências que a própria pesquisa paulatinamente demonstrava. Na medida em que os documentos eram recolhidos, tornava-se mais evidente a diversidade de tipos documentais que comporiam a coleção e, portanto, a organização que poderia melhor disponibilizá-los ao público.

Reunir os textos de Wladimir não é uma tarefa fácil. Fazemos a opção pela conjugação do verbo no presente, não no passado, pois se trata de um trabalho em aberto. Novos textos certamente surgirão, não apenas porque o autor continuará em plena atividade política e intelectual como também porque novas pesquisas poderão trazer à tona documentos que as minhas investigações não conseguiram coletar. Afinal, devemos ter em conta que as situações de clandestinidade, bem como de informalidade na produção de documentos contribui para a sua dispersão, fragmentação e eliminação, voluntárias ou involuntárias.

A um só tempo, a obra aqui reunida é diversa, vasta, sólida e dispersa. Diversa, pela variedade de assuntos, estilos e tipos documentais. Vasta, pelo grande volume de produção. Sólida, pelo denso e rigoroso conteúdo. Dispersa, pelas formas variadas de publicação e circulação.

Isto impôs uma primeira etapa de mapeamento dos livros publicados e periódicos que veicularam seus textos, o que nos levou a uma primeira aproximação do conjunto. A partir de um exaustivo processo de prospecção empírica e diálogo das evidências documentais com modelos de classificação formulados provisoriamente, procedemos seguidos ajustes e chegamos a uma proposta definitiva de plano de classificação da coleção.

Em seu primeiro nível, os textos foram reunidos em grupos a partir das espécies documentais encontradas, sendo eles dispostos em ordem alfabética. No caso de documentos publicados em revistas, jornais ou páginas eletrônicas, optou-se pela subdivisão em um segundo nível, de acordo com o nome dos respectivos órgãos que veicularam os textos. Por fim, em cada grupo ou subgrupo, as séries documentais foram organizadas em ordem cronológica, do item mais antigo ao mais recente, sendo que aqueles cuja datação não foi possível identificar constam ao final de cada uma das séries.

Ao todo, a coleção conta com 1.271 itens documentais, identificados pelo código WPO.

O mais antigo dos itens é o artigo “Sobre a discussão e os problemas da juventude”, publicado na Imprensa Popular em 22 de novembro de 1956, quando o autor tinha 20 anos, e o mais recente é o artigo “Pensando a longo prazo”, publicado no Correio da Cidadania em 23 de junho de 2016, quando estava prestes a completar 80 anos. Estão reunidos nesta coleção, portanto, seis décadas de produção intelectual.

Com exceção do artigo “Posibles caminos de Brasil”, publicado em espanhol na edição n. 3 (abr.-jun., 2007) da revista Contexto Latinoamericano, e da conferência proferida na prefeitura de Belém em abril de 2001, intitulada “Después del neoliberalismo: alternativas em discusión”, todos os demais itens estão em língua portuguesa.

Entre os ARTIGOS consta a maior parte da coleção, somando 1.113 textos, com destaque para aqueles publicados no Correio da Cidadania, órgão com o qual Wladimir colaborou com 897 artigos semanais desde março de 1998, com esporádicos e breves intervalos. Em função do espaço de tempo transcorrido desde suas publicações originais, além dos artigos publicados na Imprensa Popular entre 1956 e 1957, ressaltamos também aqueles do jornal A Classe Operária, órgão do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil, publicados entre 1969 e 1970, quando a organização se encontrava na clandestinidade.

As CORRESPONDÊNCIAS de Wladimir Pomar contam com apenas 20 itens. Não fosse a repressão da ditadura militar instaurada em 1964, que buscava documentos que revelassem informações para perseguir militantes de esquerda, não teria sido necessário eliminar uma quantidade significativa de cartas, como informou Rachel Pomar, companheira de Wladimir, em depoimento exibido no lançamento do livro Rachel e Wladimir: Cartas do Passado (2016). Optamos por não reproduzir neste grupo as correspondências que constam no livro. Por outro lado, decidimos manter as respostas não publicadas de Wladimir a perguntas feitas por jornalistas e pesquisadores.

Foram reunidas nesta coleção sete ENTREVISTAS que o autor concedeu a órgãos de imprensa e foram devidamente publicadas.

Os FOLHETOS constituem um grupo que, apesar de apresentar um volume pouco extenso, com 26 itens, contém textos de maior fôlego e dotados de expressiva densidade teórica, inclusive porque abordam temas importantes da tradição marxista, como fica evidente a partir da observação de seus títulos.

Optamos por reunir entre os LIVROS, grupo que conta com 32 entradas, as diferentes edições de suas obras, bem como obras escritas em coautoria e os capítulos, apresentações e introduções de livros. Por terem sido publicados em formato de livro, mantivemos neste grupo a transcrição de palestras e comentários em seminários de debates, como é o caso de Socialismo em debate (1917-1987) e PT: um projeto para o Brasil, ambos de 1987.

Três PRONUNCIAMENTOS, que não tiveram edição e publicação, encontram-se agrupados, cabendo destacar seu discurso no ato de traslado dos restos mortais de Pedro Pomar para Belém (PA), realizado pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) de São Paulo, em 11 de abril de 1980, quatro anos após seu assassinato pelos militares no episódio que ficou conhecido como o massacre da Lapa.

Além de textos vinculados à sua atividade militante, jornalística, historiográfica e teórica, Wladimir também produziu ROTEIROS cenográficos: uma adaptação da famosa peça de William Shakespeare, Hamlet, e uma proposta para a filmagem de uma biografia do militante do PCdoB Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, personagem lendário da guerrilha do Araguaia.

Entre os SLIDES (13) e os TEXTOS BASE (4) encontram-se materiais didáticos produzidos pelo autor quando exerceu atividade docente nos programas de pós-graduação da Universidade Cândido Mendes e na Universidade Federal Fluminense, bem como em cursos de formação política.

Por fim, tendo em vista que nem sempre foi possível identificar a espécie documental ou mesmo a publicação de alguns dos textos, principalmente aqueles oriundos do arquivo digital disponibilizado por Wladimir, estes 42 itens se encontram reunidos no grupo [SEM IDENTIFICAÇÃO].

 

Esperamos que este trabalho consiga cumprir o objetivo de fazer uma justa homenagem a Wladimir Pomar e sua luta. Em seu nome, homenageamos também toda uma geração de lutadores e lutadoras: milhares de companheiros e companheiras que não escreveram livros nem concederam entrevistas, não deram aulas nem palestras, não publicaram folhetos nem artigos, mas cuja contribuição foi decisiva e indispensável para termos resistido tanto e avançado tanto nestes últimos 80 anos.

Dessas trajetórias tiramos a inspiração para seguir em frente pelas próximas gerações.

 

Rodrigo Cesar

São Paulo, julho de 2016